A nossa história começou mais ou menos assim:

A história da Freguesia, do Senhor Bom Jesus da Cana Verde dos Batatais, que não deixa de ser, também, a nossa história, começou com os pensamentos progressistas de ocupantes do sertão dos Batataes.

Os caminhos e descaminhos, para chegarmos a estes homens trabalhadores e sonhadores, foram mais ou menos assim…

Adentrando o interior paulista, os bandeirantes criaram as paragens em locais onde, provavelmente, já havia povoação de índios, que eram levados para o norte no cultivo do milho, da mandioca, de legumes e, posteriormente, foram utilizados no cultivo da cana de açúcar geradora de riquezas para a coroa portuguesa, por um bom tempo. O trabalho agrícola deu lugar ao garimpo.

Depois de abertos os caminhos, seguindo pelas trilhas indígenas e criadas as paragens pelo interior do Brasil, pelos bandeirantes, em busca de riquezas; o rei de Portugal agraciou esses homens, de coragem, com lotes de terras. As doações consistiam em lotes de terras com dimensões gigantescas, dos quais, na verdade, não se tem o tamanho exato pela falta de precisão da topografia na época. Esses lotes foram chamados de Sesmarias. Na verdade, muitos desses contemplados pelo rei nunca chegaram a pisar nessas terras.

No Brasil a distribuição das sesmarias foi diferente, em finalidade, da que ocorreu em Portugal, aonde as doações eram feitas como incentivo à agricultura e pecuária, para o sustento do reino. Aqui tais doações, eram gratificações e honrarias, na tentativa de incentivar a exploração da terra.

Com o declínio da cana de açúcar e um possível empobrecimento de Portugal, o rei, por volta do século XVIII, começou um novo investimento em sua colônia: a busca por riquezas naturais. Isto deu inicio à corrida pelo ouro, pela prata e pelas pedras preciosas e o nome paragens mudou para caminho. Daí a mudança de Paragem dos Batatais para caminho dos Batatais, ou ainda, “Caminho dos Goyases”. Pode-se dizer que foi assim que começou o caminho do ouro encontrado em 1725, em Vila Boa, Goiás.

Se os caminhos foram importantes, muito mais importante foram os descaminhos.

Como assim?

Com o encontro do ouro em Goiás, tornou-se necessária uma fábrica de fundição para mandar o produto para a capitania e da capitania para Portugal.

A principio, a fábrica de fundição foi instalada em São Paulo dando assim movimento, transito, nos Caminhos, porém, da saída do metal das minhas até a casa de fundição e dessa para Portugal, havia extravio, desvio, do ouro para outros lugares, em benefícios de particulares, para outras capitanias como, por exemplo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e até mesmo chegando ao Maranhão. É o que chamamos de contrabando.

Com o desvio do ouro, novos Caminhos, novas trilhas foram abertas. Não havia medidas ou formas governamentais que pudessem impedir ou barrar os desvios. A medida mais viável para solucionar o problema foi á implantação da casa de fundição em Goiás, onde estavam as minas. Instalada a casa de fundição em Goiás, terminou o transito, a circulação, pelos “Caminhos”.

A conseqüência do término do transito do ouro foi o isolamento e o empobrecimento dos vilarejos e paragens dando origem à outra etapa da história, que é o surgimento dos entrantes. Por entrantes se compreende o nome doado aos posseiros, fazendeiros e famílias inteiras que começaram a fazer o caminho inverso do ouro, adentrando pelos “Caminhos” para desenvolverem a prática da agricultura e pecuária. Tal prática deu origem às grandes fazendas nas sesmarias já existentes, nunca ocupadas ou exploradas e localizadas ao longo dos “Caminhos”.

Dos entrantes, alguns tomaram posse das terras e formaram roças, ilegalmente, eram os chamados posseiros, outros adquiriam as terras legalmente, legitimamente, comprando-as e tendo escritura das mesmas. Eram posseiros e fazendeiros vindo de todas as partes, das mais diversas regiões e capitanias. Houve, nesse período, o incentivo do rei para o desenvolvimento da agricultura e pecuária para a manutenção da corte e o progresso econômico da colônia.

Em nossa região os entrantes vinham de Minas Gerais, São Paulo, Itú, santos, São Vicente, Rio de Janeiro e até de Salvador. Prevalecendo, em nossa Freguesia, os vindos de Minas Gerais.

A partir de então começa, mais precisamente, a história da nossa freguesia.

Nesse contexto de entrantes, posseiros e fazendeiros dos descaminhos, no século XVIII, é que surgem os grandes nomes, os personagens da história de Batatais, com suas fazendas legal ou ilegalmente adquiridas. São eles: Alferes Antonio José Dias, dono da fazenda Paciência; Manoel Bernardes do Nascimento, dono da fazenda Batataes; Germano Moreira, posseiro da fazenda Campo Lindo das Araras; Helena Maria Martins, dona da fazenda Prata e Pe. Manuel Pompeu de Arruda, dono da fazenda Retiro.

Instaladas as fazendas com os seus proprietários, moradores e trabalhadores, era hora de organizar a vida religiosa, pois, era necessário casar, batizar os filhos e sepultar os mortos, uma vez que, o socorro espiritual vinha de Franca, para as chamadas desobrigas, isso vez ou outra. Urgia então a necessidade de um pastor de almas entre os moradores daquelas fazendas. Por isso, no final do ano de 1810 os moradores das fazendas, Batatais e Paciência, fizeram um abaixo assinado, solicitando a criação de uma freguesia naquela localidade, para o Bispo de São Paulo, Dom Matheus de Abreu Pereira, que o encaminhou à mesa de Consciência e Ordem de Dom João VI, uma vez que a colônia estava sob o regime de Padroado Régio, solicitando a criação de uma freguesia naquela localidade.

O Regime de Padroado Régio conferia aos reis de Portugal e Espanha o direito de recolher o dízimo, criar as freguesias, criar as dioceses e nomear os bispos, em nome do Papa; em contra partida a Igreja assistia espiritualmente o povo e organizava, moralmente, a sociedade com as irmandades e associações. Tal regime perdurou no Brasil até a proclamação da república em 1889.

Após ouvir a Mesa de Consciência e Ordem, uma espécie de conselho do rei; Dom João VI, por Alvará Régio, criou a Freguesia dos Batatais. Como segue cópia:

“EU O PRINCIPE REGENTE DE PORTUGAL E MESTRE DA CAVALARIA E DA ORDEM DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, FAÇO SABER QUE ME FOI APRESENTADA, COM ANUENCIA DO REVERENDÍSSIMO BISPO DE SÃO PAULO, O REQUERIMENTO DOS MORADORES DO SERTÃO DA ESTRADA DO SERTÃO DE GOYÁS, DA REFERIDA DIOCESE, E QUE ME EXPUNHAM A GRANDE FALTA QUE SOFRIAM DE PASTORES E SOCORROS ESPIRITUAIS PELA DISTÂNCIA DE SUA FREGUESIA, PEDINDO-ME QUE A FIM DE REMEDIAR TÃO SIGNIFICATIVOS MALES LHES FAÇA A GRAÇA DE ERGUER UMA NOVA FREGUESIA NAQUELE SERTÃO. O QUE ME FOI REPRESENTADO E RESPOSTAS DOS PROCURADORES GERAIS DAS ORDENS, DA MINHA REAL COROA E FAZENDA, QUE TUDO SUBIU À MINHA REAL PRESENÇA EM CONSULTA DA MESA DA CONSCIENCIA E ORDENS: HEI POR BEM QUE NO SERTÃO DA SOBREDITA ESTRADA DE GOYAS NO BISPADO DE SÃO PAULO, ALÉM DO RIO PARDO, NO LUGAR DENOMINADO DOS BATATAES, SEJA ERIGIDA UMA NOVA FREGUESIA, COM A INVOCAÇÃO DO SENHOR BOM JESUS DOS BATATAES, NA QUAL OS MORADORES DO MESMO SERTÃO EDIFICARÃO A SUA CUSTA, O PRECISO TEMPO DE QUATRO ANOS E COMPREENDERÁ O TERRITÓRIO QUE MEDEIA ENTRE OS RIOS PARDO E SAPUCAY, SERVINDO ESTES DE LIMITES ATÉ A BARRA NO RIO GRANDE E, DIVIDINDO COM A FREGUESIA DE JACUÍ; NOS MARCOS DACAPITANIA. PELO QUE DETERMINO AO REVERENDO BISPO DE SÃO PAULO MEMBRO DO MEU CONSELHO E A TODAS AS DEMAIS PESSOAS, A QUEM COMPETE O CUMPRIMENTO DESTE ALVARÁ, O CUMPRAM E GUARDEM TUDO O QUE CONTPÉM, POIS FOI PASSADO PELA CHANCELARIA DA ORDEM E REGISTRADO NOS LIVROS DA CAMARA DO BISPADO DE SÃO PAULO E NOS DAS RESPECTIVAS FREGUESIAS.

RIO DE JANEIRO, VINTE E CINCO DE FEVEREIRO DE MIL OITOCENTOS E QUINZE.

PRINCIPE REGENTE”.

O padroeiro, Bom Jesus, foi uma sugestão do bispo de São Paulo que trazia consigo essa devoção de Portugal e o “Cana Verde” foi um acréscimo feito pelos moradores requerentes, que já cultivavam no local tal devoção. Aqui merece destaque a senhora, Liberata Joaquina da Purificação, que fez questão de deixar registrado em testamento a sua especial devoção pelo Senhor Bom Jesus da Cana Verde.

A imagem do padroeiro foi adquirida pela colaboração, financeira, dos moradores empenhados na causa.

A freguesia tornou-se vila em 14 de Março de 1839, cidade em 8 de abril de 1875, com a instalação da comarca em 20 de abril de 1875.

Podemos concluir dizendo que Batatais nasceu em 25 de fevereiro de1815, recebeu a “carteira de identidade” em 14 de Março de 1839 e a “Carteira de trabalho” em 8 de abril de 1875.