6º Fascículo

6º Fascículo – Outubro de 2013

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Estamos no mês de Outubro, mês dedicado à devoção do rosário devido à festa de Nossa Senhora do Rosário celebrada no dia 07 deste mês, a nossa paróquia tem a sorte de conservar a Irmandade do Rosário que provavelmente teve início com a criação da freguesia, ou talvez anterior a ela, pois se encontra, descrito no testamento do Alferes Antônio José Dias, uma doação, em dinheiro, à Irmandade do Rosário, este morreu em primeiro de novembro de mil oitocentos e vinte e três e a freguesia é de mil oitocentos e quinze.

As Irmandades Do Rosário ou Confraria do Rosário foram criadas pelos Dominicanos e mais tarde divulgadas por São Luiz de Monfort. Por um longo período da história as Confrarias do Rosário eram exclusivas dos Negros, tanto que eram denominadas “Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Negros”, hoje em dia conserva-se essa exclusividade somente em algumas cidades históricas, principalmente as mineiras que não é o caso da nossa cidade, em tempos atuais, porém, já foi em tempos passados. Tal Irmandade ou Confraria foi tão importante para a nossa cidade que chegou a ter capela própria como vemos na foto e no texto a seguir do nosso querido amigo Gaspar de Souza Prado Neto, assim me digno chamá-lo, a quem agradeço muito pelo texto cedido e pela valiosa contribuição dada para a conservação da história de Batatais.

Restaurando uma Imagem Perdida

A IGREJA DO ROSÁRIO

Todos que se interessam pela memória de nossa Batatais devem ter percebido, como eu, uma curiosa lacuna. Apesar das inevitáveis demolições ao longo do tempo, praticamente toda a cidade antiga pode ser restaurada pelo registro fotográfico existente, diluído nos acervos particulares ou oficiais. Entretanto, no lugar onde hoje se encontra a Câmara Municipal, existiu no passado a Igreja do Rosário, que deu origem ao largo homônimo, hoje Praça Washington Luís, demolida por volta de 1924, para dar lugar ao prédio da Prefeitura, hoje Câmara.

Para a cidade que ate então possuía apenas duas igrejas, sempre foi intrigante haver farto registro fotográfico apenas da Igreja Matriz, ficando a do Rosário por conta da nossa imaginação e da descrição de nossos antecedentes.

Algumas felizes coincidências ajudaram pouco a pouco a elucidar nosso enigma. Anos atrás recebi das mãos da D. Elma Scatena algumas fotos pertencentes ao acervo da família. Entre elas a foto de uma capela desconhecida, num largo despovoado de contrucoes. O faro de quem há muito remexe as imagens do passado me despertou a possibilidade – Será a Igreja do Rosário?  Recorri para obter a resposta à nossa parca historiografia. Diz José Augusto Fernandes, o nosso “Jean de Frans”, no seu livro Bom Jesus da Cana Verde, á pagina 17: “ A Igreja do Rosário ficava ao fundo do largo desse nome, era acanhada, sem coro sem torre, com um só altar, tendo, ao lado de fora, á esquerda, uma armação de madeira (campanário), muito alta e coberta de telhas abrigando os sinos”.

A nossa foto não tinha tal campanário lateral e foi assim guardada sem reconhecimento.

Passado algum tempo, a Câmara Municipal recebeu, para integrar o seu arquivo, dos descendentes de José Augusto Fernandes, o acervo remanescente deste sobre Batatais. Entre fotos da primeira década do século XX, veio também uma coleção de artigos de jornais, intitulada Campo Lindo das Araras, que certamente constituiria um novo livro ate hoje não publicado. Com muito interesse encontro o artigo “A igreja do Rosário” que forma o capítulo 03: “Era a Igreja do Rosário, de escassas dimensões, exígua capela mor, sem coro nem tribuna, um único altar, com imagens da Senhora do Rosário, um cercado de madeira á direita da entrada e a meia nave para a orquestra (era ali que se instalava a secção eleitoral), larga porta à frente e quatro laterais estreitas, e uma sacristia mais ou menos ampla. Sobre a porta principal, três janelas envidraçadas. Nada de torres. Fora, do lado esquerdo, uma armação de quatro esteios toscos e cobertura de telhas que tocava o telhado da Igreja, guardava os sinos, cuja cordas desciam ate o chão”. Mais adiante completa: “Somente em 1902, foram introduzidos alguns melhoramentos: — pintura geral; construção do coro; abertura entre as janelas da frente, para colocação dos sinos, e suspensão daquela armação que havia ao lado”.

A imagem que temos agora bate perfeitamente com nossa foto: a janela do centro desaparece para dar lugar aos sinos e o tosco campanário não aparece porque fora suprimido. É a Igreja do Rosário.

Ainda assim, para eliminar a possibilidade de uma coincidência, ampliamos o Largo do Rosário, detalhe de uma vista geral da cidade dos primeiros anos do século XX. O telhado, com duas águas seccionadas e as portas laterais se mostraram idênticos ao da foto, e lá ainda estava o campanário, que seria demolido depois. Não há duvida, é a Igreja do Rosário.

Simples e despojada como o casario colonial que formava o trivial da arquitetura de então, não se constituiu foco de interesse para os fotógrafos da época. Resta, pois, agradecer ao fotografo anônimo que teve a sensibilidade de perceber a sua importância e a registrou para a posteridade.

Gaspar de Sou Prado Neto. 

Pesquisador da Iconografia de Batatais.

Bom Jesus da Cana Verde