4º Fascículo

4º Fascículo – Agosto de 2013

Pintura Candido Portinari - Bom Jesus da Cana Verde

Vamos para o segundo texto sobre o padroeiro, do professor Sérgio Corrêa Amaro, que incansavelmente agradeço pela colaboração e gentileza de nos ceder o texto. Aproveito para convidar a todos para participarem, com alegria, das festividades do nosso padroeiro.

 

Bom Jesus e Batatais: O Viajante da Armênia

A data de 6 de agosto, festa do padroeiro de Batatais e de muitas outras cidades no Brasil e no mundo, sob varias invocações do Bom Jesus, tem origens bem remotas que vão muito alem da própria religiosidade cristã católica.

Na cristianização da Armênia, São Gregório, o iluminador, em luta religiosa e política com o príncipe Tridates II consegue, no ano de 301 d.c que a Armênia seja o primeiro país a adotar o cristianismo, bem como permissões do Imperador Constantino.

A prática de adaptar os costumes pagãos dos armênios fez com que o culto da deusa da fertilidade e castidade Anahit, a dos festivais coloridos e musicais do Vardavar, fosse equiparado à Transfiguração do Senhor, comemorada desde sempre em 6 de agosto; mantinha-se a data, trocava-se a devoção.

Da Armênia para os Balcãs e para Roma e toda a cristandade foi questão de tempo.

O auge do culto ao Senhor de Monte Tabor, o da Transfiguração atinge o auge quando o papa Calisto III (Afonso Bórgia, 1378-1458) instituiu que o dia 6 de agosto seria para sempre consagrado à memória da vitória cristã sobre os turcos no Cerco Belgrado (capital da atual Sérvia) em junho de 1456. O papa que muito lutou para organizar uma cruzada contra os turcos mulçumanos, tendo obtido pouco apoio dos reis europeus, considerou a vitória católica fundamental para barrar a entrada de mulçumanos na Europa, mantendo-os afastados por pelo menos 70 anos.

Este mesmo papa Calisto III foi o que reconsiderou o caso da condenação de Joana D’Arc. e criou o célebre regime do Padroado com os reinos de Portugal e Espanha pelo qual os reis ficavam incumbidos da organização e administração da Igreja Católica em seus domínios.

Coincidência ou não o papa Calisto III faleceu em 1458, no dia 6 de agosto, dia do Bom Jesus de sua fé particular.

Na sangrenta batalha de Belgrado, os camponeses cristãos se lançaram à guerra com armas simples, tipo foices e enxadas, inflamados pela oratória de João de Capistrano, monge italiano (1386-1456) e sob a condução especializada do príncipe o estrategista húngaro João Corvino (1387-1456). Do lado turco mulçumano, o sultão Mural II saiu ferido gravemente na coxa e recuou com o que sobrou das tropas.

Em Roma, o Cristo Salvador da basílica papal de São João de Latrão (atualmente a única do vaticano fora dos muros) tem duas festas maiores, 9 de novembro (dedicação) e 6 de agosto ( Transfiguração). Será o Jesus Cristo da Transfiguração o mesmo da Cana Verde, de Matosinhos, da Paciência, dos Aflitos, do Ecce-Homo, dos Perdoes, da Redenção, da Pedra Fria e muitos outros, isto é, o primeiro da Transfiguração anunciada o drama da paixão e as imagens vão sendo relacionadas à fé do lugar e das pessoas que o habitam.

Em trabalho anterior pudemos confirmar que o culto do Bom Jesus já se achava em Portugal pelo menos desde a idade média, quase exclusivo no Norte (entre-douro e Minho), expandindo do convento de Bouças para Matosinhos, daí para o restante de Portugal, Espanha e mais tarde para as colônias portuguesas dos dois lados do atlântico e ate em Goa, na Índia, catedral, alias, considerada uma das 7 Maravilhas do Patrimônio Português no mundo.

De Minas Gerais, a devoção ao Bom Jesus atingirá um raio de centenas de quilômetros, ate Goiás e Mato Grosso, passando naturalmente pelas dezenas de freguesias, paróquias, futuras vilas e cidades, como é o caso de Batatais, aqui em nossa terra vai aportar na versão Cana Verde, reproduzida, aliás, em, outros lugares de Minas, como a atual Perdões, Araguari, Tabuleiro e a própria Cana Verde. Em São Paulo encontramos a devoção em Iguape, Jardinopolis e Tremembe, no Paraná em Siqueira dos Campos, na Bahia a Lapa e Bom Jesus da Serra. Ao que consta são mais de 200 as invocações ao Bom Jesus pelo Brasil a fora.

Quando falamos em globalização e mundialização pensamos o fenômeno como se fosse completamente contemporâneo ou moderno, a história nos mostra, porém, que o Bom Jesus viajou a longo prazo, naturalmente da Armênia para os Balcãs dali para a Itália, Portugal, atravessou o oceano, aportou na Bahia, penetrou em Minas Gerais e chegou até nós.

Bom Jesus da Cana Verde