3º Fascículo

3º Fascículo – Julho de 2013

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Dando sequencia ao assunto sobre nosso padroeiro, uma vez que se aproxima a sua festa, vamos publicar, em dois fascículos, dois textos do professor Sergio Correa Amaro a quem sou muito grato pela valiosa colaboração histórica em suas incansáveis pesquisas, sobre nossa paróquia e sociedade Batataense. Que Deus lhe retribua por tudo.

Bom Jesus:

O Senhor de Muitos Nomes

Batatais foi elevada à condição de freguesia por alvará régio de 25 de fevereiro de 1815, sob a invocação do Bom Jesus da Cana Verde dos Batatais, em segmento a uma petição de moradores do entorno da primitiva capela de finais de 1810; natural que o tramite levasse mais de quatro anos, pois a Mesa da Consciência e Ordens, sediada no Rio de Janeiro, só daria anuência depois de ouvidas as partes interessadas, os párocos de Franca e Mogi Guaçu, esta porque perderia território para outra freguesia a ser criada, a de Casa Branca.

Por um motivo ou por outro, os párocos de Franca e Mogi Guaçú foram contra a criação das duas freguesias, no entanto a firme disposição do Bispo de São Paulo. D. Mateus de Abreu Pereira, que acumulava na época o governo político da capitania ao de membro de alto clero, foi decisiva e as duas freguesias foram, enfim, criadas, cada uma com área própria de jurisdição.

O alvará do príncipe regente, futuro D João VI, confirma o orago da nova freguesia como Bom Jesus da Cana Verde dos Batatais. Ora, não seria mais simples e direto designar Bom Jesus da “Cana Verde”, se a localização geográfica “dos Batatais”? A primeira vista sim, porem se examinarmos o quadro político religioso do final do século XVIII e as décadas iniciais do XIX, veremos que a indicação era mais do que apropriada, era fundamental.

Ao fazer homenagem ao santo da devoção local, o Bom Jesus da Cana Verde, sua Majestade cumpria não apenas um dever de reconhecimento, de consideração à fé dos paulistas-mineiros da margem direita do Rio Pardo, como impunha o topônimo dos Batatais para apontar uma certa e determinada condição geográfica-política. Estado e Igreja andavam juntos na conquista e colonização do Brasil, onde não alcançava a mão do rei, ali estão os representantes da religião católica, relação simbiótica mais ou menos tranqüila ao longo dos mais de três séculos desde o descobrimento.

No calor das discussões da transferência da matriz para o Campo Lindo das Araras, como já vimos, de um lado Padre Bento Jose Pereira, de outro Manoel Bernardes do Nascimento e Antonio José Dias, nunca se discutiu a invocação do Senhor Bom Jesus, apenas e tão somente a mudança física da capela.

O culto ao Bom Jesus era bastante antigo em Portugal, remontando à Idade Média, pelo menos. A lenda e a tradição popular, no entanto, indicam que a imagem de madeira do Cristo crucificado teria sido feita por Nicodemus, o amigo de Jesus, logo após a descida da cruz e a partir da modelagem inscrita no Santo Sudário. Nicodemus, segundo consta, fez cinco esculturas; perseguido pelos romanos pagãos jogou as imagens ao mar e pelo mar elas aportaram na Itália, na Síria, duas na Espanha e uma em Espinheiro, litoral de Portugal, no lugar denominado Matosinhos.

De início o culto foi estabelecido no convento de Bouças transferido para o Porto e finalmente para o outeiro de Matosinhos na altura do século XVI. O norte de Portugal foi o centro irradiador do culto atingindo todo o país, a Espanha, e num estágio, posterior, as colônias portuguesas de ultramar.

Introduzido no Brasil a devoção ao Bom Jesus de Matosinhos, vinha dos milhares de portugueses que vinham em busca de riquezas agrícolas (madeira e cana de açúcar) e depois do ouro, vamos encontrar diversas variações em torno da imagem central, a de Matosinhos de Congonhas do Campo, Minas Gerais, segunda metade do século XVIII. Assim na sequencia de representações artísticas da liturgia da Quaresma foram surgindo e se adaptando à religiosidade local e popular do Senhor dos Passos, o Senhor da pedra Fria, dos Aflitos, Ecce Homo, da Paciência, da Flagelação, da Coluna e naturalmente, o nosso Cana Verde.

Chegamos ao ponto, a cada freguesia o “seu” Bom Jesus, o orago bem especificado com “nome e sobrenome”. À época da criação da freguesia em Batatais, já vinha correndo até a mais tempo (desde 1803) um processo de autorização do estatuto da Confraria do Bom Jesus de Matosinhos de Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais. Por fim o príncipe regente a reconheceu em fevereiro de 1814, em outubro a freguesia de Casa Branca, e em fevereiro de 1815 a de Batatais.

Nossas pesquisas indicam um fato que pode ajudar a explicar detalhes da história de Batatais o de que em Lavras do Funil (atual Lavras – MG) havia permissão para erigir uma capela do Bom Jesus da Cana Verde em 1768 e quem era de lá, quem havia se casado em Lavras? Nada menos que um dos protagonistas do célebre caso da mudança de freguesia, o português Antonio José Dias. Teriam sido ele e a esposa, Ana Antonia do Espírito Santo, os introdutores do culto ao Bom Jesus da Cana Verde em nossa terra?

Hoje, por pesquisa do próprio professor Sergio, já descobrimos que a imposição do orago à nossa freguesia foi do Sr Bispo de São Paulo, Dom Matheus de Abreu Pereira. Essa informação foi encontrada na documentação de criação da freguesia o arquivo nacional do Rio de Janeiro.

Bom Jesus da Cana Verde padroeiro de Batatais